Vou te contar o caso de uma paciente — vou chamá-la de L. — porque a história dela explica muita coisa.
L. chegou ao consultório dizendo que “não conseguia parar de comprar”. O armário transbordava. Ela comprava roupas, maquiagem, objetos para a casa, coisas que nem lembrava ter comprado quando chegavam. O marido reclamava, o cartão estourava, e ela se sentia envergonhada — mas não conseguia parar.

Durante as sessões, fomos descobrindo algo que L. nunca tinha percebido. As compras quase nunca aconteciam quando ela estava feliz. Aconteciam quando ela se sentia invisível. Quando o marido chegava do trabalho e não perguntava como tinha sido o dia dela. Quando ela se olhava no espelho e não gostava do que via. Quando participava de uma reunião de família e sentia que ninguém a levava a sério.
L. não estava comprando roupas. Ela estava tentando comprar visibilidade. Estava tentando comprar a sensação de existir, de ser notada, de ser suficiente. Cada pacote que chegava era uma promessa: “agora você vai se sentir bonita”. “Agora vão te olhar.” “Agora você importa.”
E quando o pacote abria, a promessa não se cumpria. Porque visibilidade não vem de etiqueta. Ela vem de dentro.
A mesma fome, outra vitrine
Agora pensa na mulher que come compulsivamente. Será que é tão diferente?
Quando ela devora aquele doce no meio da madrugada, o que está tentando engolir? Talvez uma solidão que não consegue nomear. Talvez uma raiva que engoliu o dia inteiro. Talvez um medo que não sabe onde colocar. Talvez a falta que sente de algo que nunca teve — ou que teve e perdeu.
A comida desce, e por um instante parece que o vazio também desce com ela. Mas o vazio não vai embora. Ele apenas espera. Porque o que estava sendo alimentado não era o estômago — era algo na alma que nenhum alimento alcança.
Essa é a verdade que quase ninguém fala: nenhuma compulsão é sobre o que parece ser.
A compra não é sobre o objeto. A comida não é sobre o alimento. São tentativas — desesperadas, humanas, compreensíveis — de preencher um buraco que não está à venda em lugar nenhum.
O buraco que a gente carrega
Todas nós carregamos algum vazio. Ele pode ter nascido de uma infância em que faltou colo. De um amor que partiu cedo demais. De uma crítica que ficou gravada. De uma sensação antiga de não ser boa o bastante — boa o bastante para ser amada, para ser escolhida, para ficar.
Quando esse vazio aperta, a gente sente uma inquietação difícil de descrever. Não é fome. Não é tristeza exatamente. É um desconforto difuso, um “não sei o que estou sentindo, só sei que preciso de algo”.
E é nesse momento que o cérebro busca o atalho conhecido. Para algumas, é a comida. Para outras, a compra. Para muitas, os dois — porque os dois prometem a mesma coisa: preencher, aliviar, anestesiar.
Mas o objeto e o alimento são símbolos. E símbolos nunca preenchem o que é real.
Você pode encher o armário e continuar vazia por dentro. Pode encher o estômago e continuar com fome de afeto. Pode gastar, devorar, acumular — e acordar no dia seguinte com a mesma pergunta ecoando: por que nada disso me completa?
Porque nada disso foi feito para completar. A completude não é um produto. É um estado interno que se constrói — devagar, com autoconhecimento, com a coragem de olhar para o que dói em vez de anestesiar.
A pergunta que pode mudar tudo
Quero te propor uma mudança de olhar. Da próxima vez que sentir o impulso — de comprar, de comer, de gastar, de exagerar —, em vez de se perguntar “o que eu quero comprar?” ou “o que eu quero comer?”, pergunte:
O que eu realmente quero que isso me traga?
A resposta quase nunca será “um vestido” ou “um chocolate”. Escuta o que vem depois. Talvez seja “me sentir bonita”. Talvez “me sentir amada”. Talvez “me sentir em paz”. Talvez “me sentir no controle”. Talvez “descansar”. Talvez “ser suficiente”.
E então a pergunta seguinte, a mais corajosa de todas:
Se isso não está à venda, onde eu posso encontrar?
Essa pergunta não tem resposta pronta. Ela é o começo de uma jornada — a jornada de voltar para si mesma. De descobrir que a beleza que você busca no vestido já existe no seu olhar. Que o amor que você procura no doce já pode ser praticado por você, com você. Que a paz que você tenta comprar não se vende — se constrói, em silêncio, em presença, em cuidado.
No consultório, eu caminho com mulheres exatamente nessa jornada. Não para tirar delas o prazer da comida ou da compra — mas para devolver a elas o prazer de se encontrar. De se conhecer. De descobrir que o vazio, quando encarado com acolhimento, deixa de ser um buraco e vira um espaço — um espaço novo, pronto para ser preenchido com o que realmente importa.


