O “eu mereço” que está te afundando (e você nem percebeu)

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Cintia Seabra

Psicóloga especialista em Compulsão Alimentar e Emagrecimento.

“Eu trabalhei tanto hoje. Eu mereço.”

Essa frase já saiu da sua boca? Talvez diante da vitrine. Talvez diante da geladeira, às dez da noite, depois de um dia inteiro cuidando de todo mundo.

Eu a escuto todos os dias no consultório. Querer se recompensar depois de um dia difícil não é errado — é humano. O problema não é o “eu mereço”. É o que você aprendeu a fazer com ele.

Repare: o “eu mereço” quase nunca vem depois de uma conquista celebrada. Vem depois de um esforço invisível — aquele que ninguém viu, ninguém agradeceu. Você cuidou da mãe doente, segurou o estresse do trabalho sozinha, disse sim para todo mundo o dia inteiro — e guardou os seus “nãos” para depois.

E então, exausta, uma voz diz: “você merece”. Merece o quê? Descanso? Colo? Não. A voz diz que você merece um doce. Merece aquela compra. Merece o excesso.

Por que será que, quando finalmente nos lembramos de nós mesmas, a única forma que conhecemos de nos cuidar é exagerando?

A recompensa que virou castigo

A mulher se esforça o dia inteiro e, no fim, se recompensa com comida ou compras. Na hora parece justo. Mas no dia seguinte acorda com culpa — e a culpa cobra um preço: ela compensa sendo mais rígida consigo mesma. Quanto mais se cobra, mais exausta fica. Quanto mais exausta, mais “merece” alívio. E o alívio vem, de novo, em forma de excesso.

Percebeu o ciclo? Ele não tem fim — porque a recompensa nunca resolve a necessidade de fundo.

Você não estava com fome de doce. Estava com fome de reconhecimento. Você não precisava daquela compra. Precisava de uma pausa. Você não queria aquele excesso. Queria ser vista sem precisar pedir.

Mas como ninguém te viu — como você mesma não se viu — o corpo pediu o que sabia pedir: açúcar, objeto, estímulo.

De onde vem essa dificuldade de se cuidar sem excesso?

Quase sempre, a resposta está na história. Muitas mulheres cresceram aprendendo que cuidado é coisa para os outros, que se priorizar é egoísmo, que descanso é prêmio — não direito. Então se esgotam (sem perceber), porque só assim se autorizam a parar. E quando param, não sabem parar em paz: param no excesso, no doce, no carrinho cheio.

A comida e a compra viram o prêmio por ter sobrevivido ao dia. Mas você não foi feita para apenas sobreviver. Você foi feita para viver — e viver inclui descanso sem culpa, prazer sem exagero, cuidado sem merecimento.

O que você realmente merece?

Quero te fazer um convite — não de dieta, mas de consciência. Pega um papel e responda com sinceridade:

Depois de um dia difícil, o que eu realmente preciso? Se nenhum excesso existisse, como eu poderia me acolher? O que eu diria a uma amiga exausta que veio pedir colo?

Agora a parte mais importante: o que você diria a essa amiga, você também pode dizer a si mesma.

Talvez descubra que o que merece é dormir mais cedo, uma caminhada, um banho demorado, um café tomado devagar, sem culpa. Nada disso está na geladeira. Nada disso está no carrinho de compras. E, no entanto, tudo isso alimenta — de um jeito que açúcar nenhum alimenta.

Recompensa não precisa ser excesso. Recompensa pode ser cuidado. E cuidado não afunda — sustenta.

E se você se reconhece nessa história

Se o “eu mereço” virou porta de entrada para o descontrole com a comida ou com as compras — saiba que isso não é falta de força de vontade. É um padrão emocional construído ao longo da vida, e padrões se transformam com o trabalho certo.

Cuidar desse padrão é exatamente o que eu faço

Como psicóloga especialista em compulsão alimentar, compras e emagrecimento, atendo mulheres que, como você, se descontrolam com a comida ou com as compras — e que descobrem, na psicoterapia, que o excesso quase nunca é sobre o que parece ser. É sobre uma emoção que pede escuta, uma história que pede acolhimento, uma relação consigo mesma que pede reconstrução.

Na psicoterapia, a gente não vai brigar com o seu “eu mereço”. A gente vai entender de onde ele veio, o que ele está tentando te dar — e te ajudar a encontrar formas de cuidado que realmente sustentem, em vez de afundar.

Você não precisa continuar pagando com o próprio corpo o preço de um descanso que nunca chega. Merece descansar sem culpa, se cuidar sem excesso e viver — não apenas sobreviver.

Esse trabalho começa com um primeiro passo. E eu posso caminhar com você.

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