O carrinho de compras e o prato cheio: a mesma fome que ninguém nomeia

Picture of Cintia Seabra

Cintia Seabra

Psicóloga especialista em Compulsão Alimentar e Emagrecimento.

Existe uma cena que se repete em silêncio em milhares de casas.

Uma mulher no sofá, o celular na mão, deslizando os dedos por uma loja. O vestido é bonito. Ela não precisa dele — o guarda-roupa está cheio de etiquetas, algumas ainda com plástico. Mas há algo naquele gesto de escolher e pagar que a faz sentir-se, por alguns segundos, viva. No controle.

Horas depois, a mesma mulher está diante da geladeira. Não sente fome. Mas a mão já abriu a porta, já pegou o doce, já levou à boca. Come rápido, quase sem saborear, como se houvesse pressa em apagar algo. Quando para, a culpa chega antes da digestão — junto com a pergunta que a persegue: “por que eu fiz isso de novo?”

Eu atendo mulheres assim há décadas. E posso te dizer o que talvez surpreenda: a cena do carrinho e a cena da geladeira são a mesma cena. Mudam o objeto, muda o cenário, mas o gesto é idêntico — e a fome também.

A fome que não é de comida nem de compra

Quando falamos de compulsão, olhamos quase sempre para o comportamento: comer demais, gastar demais. Raramente olhamos para o que vem antes — o vazio, a inquietação sem nome que pede alívio imediato.

Pode parecer estranho comparar uma bolsa nova a um pote de sorvete. Mas, para o cérebro, a distância é menor do que imaginamos. Tanto a compra quanto a comida ativam o circuito de recompensa, liberando dopamina e dando um prazer quase instantâneo — o mesmo caminho de uma notícia boa, de um elogio, de um abraço.

A diferença? A compra e a comida estão sempre disponíveis. Não dependem de outra pessoa, nem de sermos vistas. Dependem só de nós.

E é exatamente aí que mora a armadilha. Quando a vida aperta, quando o casamento esfria, quando o trabalho suga, quando ninguém enxerga o quanto você se esforça — o cartão e a geladeira viram os únicos lugares onde você encontra prazer sem pedir licença. Você decide. Você controla. Naquele instante, você é dona de algo.

Mas repare no depois. A euforia passa. O objeto chega e não preenche. A comida desce e o vazio sobe. E você descobre, mais uma vez, que o alívio foi anestesia — não cura.

O que o excesso está tentando dizer

Por muitos anos eu acreditei — como quase todo mundo — que a compulsão era falta de força de vontade. Levei tempo para entender que estava errada.

A compulsão não é fraqueza. É estratégia. É o jeito que o seu psiquismo encontrou para suportar o insuportável: a solidão, o medo, a raiva engolida, a sensação de não ser suficiente. Quando as emoções não têm palavras, elas encontram atalhos — e comida e compra são os mais acessíveis que existem.

Por isso, quando alguém chega ao consultório dizendo “não aguento mais comer escondido” ou “não consigo parar de comprar”, eu não pergunto sobre dietas ou planilhas de gastos. Pergunto outra coisa:

O que tem acontecido na sua vida que está difícil de sentir?

Porque atrás de cada episódio de excesso existe uma emoção não acolhida. Uma conversa não dita. Uma lágrima não chorada. Um “não” não falado.

Um convite para parar

Hoje eu não vou te pedir para cortar o doce nem apagar o aplicativo da loja. Vou te pedir algo mais difícil — e mais transformador.

Na próxima vez que o impulso vier, antes de abrir a geladeira ou o site, pare. Respira uma vez, devagar. E se pergunte, com carinho, sem julgamento:

O que eu estou sentindo agora? O que aconteceu hoje que me trouxe até aqui? Se essa fome pudesse falar, o que ela diria?

Talvez diga que você está exausta. Talvez sozinha. Talvez com medo. Talvez precisando de descanso, de colo, de limites, de uma conversa sincera.

A resposta não virá na primeira tentativa — silenciamos essas vozes há tanto tempo que elas aprenderam a falar por gestos, não por palavras. Mas aos poucos, pausa após pausa, você vai aprendendo a escutar.

E quando você nomeia a fome verdadeira, o carrinho e o prato deixam de ser os únicos lugares onde você procura alívio. Você descobre que existe um mundo inteiro de cuidado esperando por você — e que ele começa dentro de você.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Veja também

Baixe meu e-book

Descubra Porque 90% DAS MULHERES que Emagrecem,
Engordam Tudo Novamente.

Me acompanhe no Youtube