
Uma conversa com o Dr. Rafael Figueiredo, médico psiquiatra.
Se você já se viu diante da geladeira comendo sem conseguir parar, seguida daquela culpa que aperta o peito, este texto foi escrito para você. Porque a compulsão alimentar — essa batalha silenciosa que tantas mulheres travam todos os dias — vai muito além de “comer demais”. Ela é, na verdade, uma mensagem que o seu cérebro está tentando te enviar.
Para falar sobre isso com profundidade, convidei o Dr. Rafael Figueiredo, médico psiquiatra, para uma conversa que atravessou a neurociência, a psiquiatria e a psicologia. E o que descobrimos é que, por trás de cada episódio de descontrole, existe uma história — e ela merece ser ouvida.
O que é a compulsão alimentar, afinal?
Pela perspectiva da psiquiatria, o Dr. Rafael explica que a compulsão alimentar se define pela ingesta de uma grande quantidade de alimento em um curto período de tempo — geralmente até duas horas, um volume que uma pessoa em condições normais não conseguiria ingerir, porque os mecanismos de saciedade seriam ativados antes.
Mas há um detalhe que faz toda a diferença: para caracterizar o transtorno, é essencial a percepção de perda de controle. Sem ela, não é possível falar em compulsão alimentar propriamente dita.
E existe uma tríade que quase sempre caminha junto: a culpa, a vergonha e o arrependimento. Uma retroalimenta a outra. Quem sofre com a compulsão carrega, em geral, uma quantidade de afetos negativos muito maior — ansiedade, sintomas depressivos, autoavaliação negativa, baixa autoestima. E todos esses sentimentos contribuem para manter o ciclo da compulsão vivo.

O que o seu cérebro está tentando te dizer?
Essa é a pergunta central. E a resposta é profundamente reveladora.
O Dr. Rafael explica que a regulação do apetite envolve mecanismos neurobiológicos complexos que acontecem dentro do cérebro. E que a compulsão alimentar, muitas vezes, é a forma que o seu corpo encontra de lidar com algo que está mal resolvido.
Na minha prática clínica, é impressionante como isso se confirma. As pessoas chegam ao consultório dizendo apenas que estão “comendo demais e ganhando peso”. Mas, logo na primeira sessão — na avaliação de necessidades em que passo uma hora e meia com a paciente —, é muito comum perceber que existe algo por trás: uma depressão, um transtorno afetivo bipolar, um processo de luto, a chegada da menopausa, um sono desregulado.
A maior comorbidade do comer compulsivo é a depressão — seja bipolar ou unipolar. E é exatamente aí que entra o famoso comfort food: comer para aliviar os sintomas tão desagradáveis da depressão. A comida está ali, na cozinha, na palma da mão, a um clique no delivery. E, na maioria das vezes, a preferência é pelos alimentos super palatáveis — o doce, o carboidrato.
Por que a comida? E por que o doce?
Se a pessoa está saciada, sem fome física, por que ela recorre à comida?
O Dr. Rafael traz uma explicação que remonta à nossa evolução. Durante milhares de anos, comer era uma questão de sobrevivência. Quando o alimento estava disponível, era preciso ingerir o máximo possível e estocar em forma de gordura para sobreviver. Esse mecanismo moldou o nosso cérebro ao longo dos milênios.
Hoje, quando vivenciamos uma sensação de perigo — que chega na forma de muita ansiedade ou estresse —, ativamos esse “cérebro reptiliano” que busca conforto na comida. Perdemos o controle do córtex frontal, aquela parte que diz “já deu, você está satisfeito”. E aí comemos sem parar.
E o doce? A explicação é fascinante. A mistura de gordura e açúcar ativa em cheio o centro de recompensa do cérebro, provocando um disparo de dopamina muito alto — uma gratificação quase imediata. É por isso que a coxa de frango não desperta o mesmo impulso que o chocolate. O doce mexe com o sistema de recompensa de um jeito que poucos alimentos conseguem.
Como se trata a compulsão alimentar?
Uma das mensagens mais importantes que o Dr. Rafael trouxe é esta: o tratamento é multidisciplinar. Não existe “remedinho” que resolva sozinho.
O primeiro passo é uma anamnese bem feita — entender a rotina da pessoa, o sono, o trabalho, as relações, os gatilhos. E o tratamento envolve, de forma integrada:
- Acompanhamento psiquiátrico — para avaliar e tratar comorbidades (depressão, transtorno bipolar, alcoolismo);
- Acompanhamento psicológico — para trabalhar as emoções, a história de vida e os traumas;
- Acompanhamento nutricional — para reconstruir a relação com a comida;
- Avaliação endócrina — para verificar questões hormonais (como a menopausa);
- Atividade física — como parte de um estilo de vida saudável.
O Dr. Rafael faz uma colocação que eu assino embaixo: “Eu não estou pensando no seu emagrecimento agora. Eu estou pensando em você daqui a 2, 5 anos.” A compulsão alimentar não se resolve com atalhos. Ela se resolve com comprometimento consigo mesma — e com uma equipe que caminha ao seu lado.
O alerta sobre as canetas emagrecedoras
Não poderíamos deixar de falar sobre o assunto que está em toda parte: as canetas emagrecedoras (Mounjaro, Ozempic e similares).
Quero deixar claro: não somos contra a caneta. Ela é um recurso medicamentoso fantástico que veio para revolucionar a medicina em muitas situações. Mas ela não é para todo mundo, não é isenta de efeitos adversos, e — o mais importante — ela não resolve a compulsão alimentar sozinha.
Como o Dr. Rafael bem colocou: “Mounjaro não cura trauma.” As causas da compulsão não estão ligadas diretamente aos mecanismos pelos quais a caneta atua. Se você usa a caneta sem cuidar da sua cabeça — sem terapia, sem entender as suas emoções, sem tratar a comorbidade —, a chance de voltar a engordar quando parar é enorme.
Se você está considerando a caneta, faça terapia. Cuide da sua mente. Porque o emagrecimento sustentável é o que acontece de dentro para fora.
Quando buscar acompanhamento psiquiátrico?
O Dr. Rafael foi muito claro: o momento de buscar um psiquiatra é quando a pessoa percebe que não está conseguindo ter controle sobre o comportamento alimentar. Quando o comer começa a afetar relacionamentos, quando a pessoa come escondido, quando a autoestima é profundamente impactada, quando ela sente que está “desmoronando”.
Muitas vezes, a pessoa acha que o problema é só a comida — mas está gravemente deprimida e precisa de tratamento para a depressão para conseguir controlar a alimentação. E aqui vai um ponto que eu reforço sempre: a psiquiatria não é o que era. Já foi o tempo em que procurar um psiquiatra era motivo de medo ou preconceito. Hoje, profissionais como o Dr. Rafael estão aí para somar, para cuidar e para devolver qualidade de vida.
Os mitos que precisam ser quebrados
Perguntei ao Dr. Rafael qual era, na opinião dele, o maior mito sobre a compulsão alimentar. E a resposta foi certeira:
“O maior mito é acreditar que a compulsão se resolve com força de vontade. Os transtornos mentais são transtornos físicos — tão reais quanto um braço quebrado. Você não cola um braço sozinho. Precisa de intervenção médica, de cuidado, de ajuda.”
E eu acrescento o outro lado dessa moeda: a compulsão não se resolve com dieta. Jejum intermitente, planinho alimentar, dieta radical — tudo isso alimenta a compulsão. É o efeito estilingue: quanto mais você restringe, mais forte vem o descontrole depois. O jejum excessivo, inclusive, entra nos comportamentos compensatórios até da bulimia.
Compulsão alimentar não é sobre comer muito. É muito mais que isso. E é por isso que a solução nunca vai estar em uma dieta da moda.
Por que tantas mulheres perdem o controle à noite?
Essa é uma das perguntas que mais recebo — e o Dr. Rafael trouxe respostas valiosas. Existem várias explicações possíveis:
- O cronotipo noturno: muitas pessoas (especialmente com transtorno bipolar) têm o relógio biológico desregulado e ficam mais ativas à noite — e a impulsividade. alimentar vem junto
- O ambiente: em casa, o chocolate está na despensa, a comida gostosa está na geladeira. No trabalho, não há essa liberdade — o ambiente já inibe.
- O cansaço: depois de um dia estressante, a pessoa se permite comer para se gratificar.
- O “terceiro turno”: é à noite que a mulher finalmente para de cuidar dos outros e tem tempo para pensar na própria vida — nas contas, no casamento, nas preocupações. E a comida vira o refúgio.
A recomendação do Dr. Rafael — e que eu endosso com todo o meu trabalho — é simples e poderosa: coma com consciência. Sente-se, coma só, mastigue, preste atenção. Não coma em pé, não coma no celular, não coma vendo TV. Quando você está presente no momento de comer, você percebe a saciedade — e o descontrole perde espaço.
Compulsão alimentar × fome emocional
Para fechar com clareza, vale a diferença que o Dr. Rafael explicou tão bem:
Compulsão alimentar:
- Ingestão de grande quantidade de alimento em curto período;
- Percepção de perda de controle;
- Sensação intensa de culpa, vergonha e fracasso;
- Muitas vezes acontece escondida, sem um gatilho claro;
- Episódios bem determinados.
Fome emocional:
- A busca por comida como alívio de um sentimento;
- Não necessariamente em grande quantidade — pode ser o famoso belisco;
- Está ligada a uma situação específica (ansiedade, insegurança, tristeza);
- A pessoa percebe que está comendo mediante alguma emoção.
A mensagem que fica
Se você chegou até aqui, quero que leve três verdades:
Você não é fraca. A compulsão alimentar é um transtorno com base neurobiológica, emocional e psicológica. Não é falta de força de vontade — e quem diz isso não entende o que você vive.
Você não está sozinha. Existe tratamento, existe equipe, existe um caminho. Milhares de mulheres sofrem em silêncio — mas o silêncio não precisa ser a sua história.
A saída é por dentro. Quando você cuida da sua mente, das suas emoções e da sua história, a relação com a comida se transforma. E o emagrecimento deixa de ser uma batalha para se tornar uma consequência.
Agradeço imensamente ao Dr. Rafael Figueiredo pela contribuição preciosa nesta conversa. E agradeço a você, que chegou até aqui ampliando o seu nível de consciência. Compartilhe este conteúdo com quem você sabe que pode se beneficiar — informação de qualidade transforma vidas.


