Tem uma cena que eu já vi se repetir centenas de vezes no meu consultório. A mulher que passa o dia inteiro “bem”, que come direito, que se controla, que é a pessoa mais resolvida do ambiente. E que, à noite, quando todo mundo dorme, abre a geladeira. Ou come na frente da TV. Ou esconde o que come para ninguém ver.
Ela come escondido. E sente uma vergonha enorme por isso.
Eu quero falar sobre essa vergonha hoje. Porque ela é uma das chaves para entender a compulsão.
A mulher que come escondido muitas vezes não come porque tem fome. Ela come porque tem algo que ela não consegue falar em voz alta. E a comida vira uma forma de silenciar aquilo — mesmo que por alguns minutos.
O segredo alimenta o ciclo. Quanto mais ela esconde, mais vergonha sente. Quanto mais vergonha, mais come. Quanto mais come, mais se odeia. E quanto mais se odeia, mais esconde de novo. É um ciclo que se retroalimenta.
E eu sempre pergunto para essas mulheres: o que você está tentando calar?
Porque por trás do comer escondido quase sempre existe uma emoção que não encontrou voz. Uma raiva que ela não conseguiu expressar. Uma tristeza que ela não deixou sair. Uma ansiedade que ela não sabe nomear. Um cansaço que ela não se permite sentir.
A comida não é o único problema — ela é um dos sintomas. E enquanto o foco for só a dieta, o ciclo tende a se repetir. Não porque falta força de vontade, mas porque a emoção continua sem espaço para existir.
A literatura científica é clara sobre isso.
Estudos sobre alimentação emocional mostram que a vergonha e o segredo em torno do comer estão entre os fatores que mais mantêm o ciclo da compulsão.
A Terapia Cognitivo-Comportamental, que é uma das abordagens com maior evidência no tratamento dos transtornos alimentares, trabalha exatamente nesse ponto: identificar o que a pessoa sente no momento em que surge a vontade de comer, para que a emoção deixe de ser silenciada pela comida.
Preciso ser honesta com você: nem toda compulsão tem a mesma origem. Existem casos em que a dimensão fisiológica e neurológica é muito forte, e que pedem avaliação e tratamento específicos. Não estou dizendo que é simples. Estou dizendo que, na maioria das vezes, a emoção calada está no centro — e que ignorá-la é o que mantém o ciclo vivo.
Eu não estou dizendo que é fácil. Muito pelo contrário. Eu sei o quanto é difícil olhar para dentro. Eu sei o quanto é mais confortável comer do que sentir. Eu sei que a comida, naquele momento, parece a única coisa que acolhe.
Mas eu também sei que dá para mudar isso. E a mudança começa com um gesto simples, mas poderoso: parar antes de comer e se perguntar o que você está sentindo.
Não é sobre virar especialista em emoções da noite para o dia. É sobre começar a perceber. Perceber que a vontade de comer, muitas vezes, não é fome. É um pedido de socorro de uma parte de você que está cansada de ser silenciada.
A mulher que aprende a identificar o que sente antes de comer descobre algo incrível: ela não precisa mais da comida para falar por ela.

E quando ela finalmente consegue dizer em voz alta o que sentia — a raiva, a tristeza, o medo — ela percebe que a compulsão perde a força. Porque a comida deixou de ser a única voz.
Comer escondido é uma forma de se esconder de si mesma. E o caminho não é se esconder menos. É se encontrar mais.
Este conteúdo é educativo e não substitui o acompanhamento psicológico individual.
Referências:
- Fairburn, C. G. (2008). Cognitive Behavior Therapy and Eating Disorders. Guilford Press.
- van Strien, T. (2018). Causes of emotional eating and matched treatment of obesity. Current Diabetes Reports, 18(6), 35.
- Macht, M. (2008). How emotions affect eating: A five-way model. Appetite, 50(1), 1–11.


