A armadilha de ser “boazinha” demais (e como isso engorda)

Você caiu na compulsão e acha que tudo está perdido? Saiba por que o fracasso é parte essencial do emagrecimento sustentável.
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Cintia Seabra

Psicóloga especialista em Compulsão Alimentar e Emagrecimento.

Eu já atendi muitas mulheres que me disseram, com o peito cheio de orgulho, que são “boazinhas”. E eu sempre respondo a mesma coisa: cuidado. Porque, na maioria das vezes, esse “boazinha” não é um elogio. É uma sentença.

Quando uma mulher é chamada de “boazinha” no trabalho, na família, entre os amigos, quase sempre tem um tom pejorativo por trás. Significa que ela não se posiciona. Que ela aceita. Que ela engole. Que ela diz sim quando quer dizer não, e sorri quando quer chorar.

E o que ela faz com tudo aquilo que engole? Muitas vezes, ela come.

Não é coincidência que tantas mulheres que “não conseguem falar não” sejam as mesmas que “não conseguem parar de comer”. É o mesmo movimento. A mesma dificuldade de estabelecer um limite. A mesma dificuldade de se colocar em primeiro lugar.

A mulher que agrada sempre está, na verdade, dizendo não para si mesma o tempo todo. Cada “sim” que ela dá para os outros é um “não” que ela engole. E emoção engolida não desaparece — ela acha uma saída. E muitas vezes a saída é o prato.

A ciência ajuda a entender esse mecanismo. Estudos sobre regulação emocional mostram que, quando uma pessoa não consegue expressar o que sente, a emoção não simplesmente desaparece — ela busca canais alternativos de descarga. E a alimentação é um dos canais mais acessíveis e imediatos que existem. Pesquisas em psicologia apontam que a dificuldade de identificar e expressar emoções — o que chamamos de alexitimia — está associada a uma maior frequência de episódios de alimentação emocional e de compulsão.

Eu vejo isso todos os dias no consultório. A mulher que passa o dia inteiro cuidando de todo mundo, resolvendo tudo, sendo “boazinha”, chega em casa exausta. E o que ela faz? Come. Não por fome. Porque é a única hora do dia em que ela finalmente faz algo por si mesma — mesmo que seja se empanturrar.

É claro que a compulsão alimentar é complexa e tem muitas causas — questões emocionais, biológicas, o histórico de dietas, até fatores metabólicos. Não existe uma única explicação. Mas, entre as mulheres que atendo, a dificuldade de se posicionar e de dizer não é um dos fios mais recorrentes que liga a emoção à comida. E é sobre esse fio que quero falar.

O medo por trás disso é quase sempre o mesmo: o medo da rejeição. O medo do olhar de reprovação. O medo de que, se ela disser não, as pessoas deixem de gostar dela.

Mas eu preciso te contar uma coisa que aprendi depois de anos atendendo mulheres assim: quem diz não o tempo todo para si mesma acaba se tornando a pessoa que mais se abandona. E aí, sim, ela se sente sozinha de verdade.

A mulher que aprende a se posicionar descobre algo libertador: ela não precisa ser querida por todo mundo para ser amada por quem importa. Ela não precisa agradar para existir.

E é exatamente aí que a relação com a comida começa a mudar. Porque quando ela para de engolir pessoas, ela para de precisar engolir comida para compensar.

Não é sobre virar uma pessoa “chata” ou “difícil”. É sobre entender que dizer não, às vezes, é o ato mais amoroso que existe — consigo mesma e com os outros. O primeiro passo é pequeno e concreto: na próxima vez que quiser dizer sim só para agradar, respirar, sentir o que está pedindo dentro de você, e se dar a chance de dizer não — mesmo que seja para algo pequeno. O “não” se treina. E cada “não” que ela se permite é um “sim” que ela finalmente se dá.

Este conteúdo é educativo e não substitui o acompanhamento psicológico individual.

Referências:

  • Fairburn, C. G. (2008). Cognitive Behavior Therapy and Eating Disorders. Guilford Press.
  • Heatherton, T. F., & Baumeister, R. F. (1991). Binge eating as escape from self-awareness. Psychological Bulletin, 110(1), 86–108.
  • Nowakowski, M. E., McFarlane, T., & Cassin, S. (2013). Alexithymia and eating disorders: A critical review of the literature. Journal of Eating Disorders, 1, 21.

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